04 março 2026

Reserva de Mercado, Linguagem Técnica e o Aportuguesamento de Termos na Informática Brasileira

 


Nas décadas de 1970 e 1980, a informática brasileira viveu um período muito particular. Não foi apenas uma fase de desenvolvimento tecnológico, foi também um momento de construção de identidade técnica e linguística.


A Reserva de Mercado e a Política Nacional de Informática

Durante o regime militar, o Brasil implementou a chamada “reserva de mercado” na área de informática. Essa política foi formalizada pela Lei da Informática de 1984 e executada principalmente pela Secretaria Especial de Informática (SEI).

O objetivo era claro:

  • Reduzir a dependência tecnológica externa
  • Criar uma indústria nacional forte
  • Desenvolver conhecimento técnico próprio
  • Formar engenheiros capacitados internamente

Empresas estrangeiras enfrentavam restrições para vender certos equipamentos no Brasil. A ideia era estimular a produção e o desenvolvimento locais.

Essa política só foi encerrada no início dos anos 1990, durante o governo de Fernando Collor de Mello, quando o mercado foi aberto às importações.

 

A Linguagem como Parte do Projeto Tecnológico

A política de informática não era apenas industrial, havia também um componente cultural e linguístico.

A lógica era simples e ambiciosa:

Se dominamos a linguagem, dominamos a tecnologia.

Dentro desse espírito, muitos autores passaram a evitar termos em inglês e criar equivalentes totalmente em português. Entre os nomes mais conhecidos dessa linha estava o professor José Antonio Zuffo, da Universidade de São Paulo (USP).

Seus livros foram importantes na formação de engenheiros, mas ficaram famosos também pelo uso intenso de traduções técnicas próprias, que muitos consideravam difíceis. No meio, alguns referiam-se a ele, carinhosamente, como professor Zovni.

 

O Problema das Traduções Literais

Alguns termos passaram a receber traduções extensas e pouco práticas. O exemplo clássico é:

EPROM
(Erasable Programmable Read-Only Memory)

Em vez de manter a sigla internacional, surgiam equivalentes como:

  • MARSL  “Memória Apagável e Reprogramável Somente para Leitura”
  • variações ainda mais longas e descritivas
BUFFER
  • buffer: “memória intermediária”
  • “amortecedor de dados”

O problema prático era evidente:

  1. Datasheets vinham em inglês.
  2. A literatura internacional usava as siglas originais.
  3. O aluno precisava “retraduzir mentalmente” para entender o padrão global.

Isso criava uma camada extra de dificuldade no aprendizado.

 

O Caso atual do  “Reset”

A discussão sobre o termo reset ilustra bem esse conflito.

Em inglês:

  • reset: pronuncia-se “ri-sét” (com som de S)

No Brasil, surgiram três caminhos:

  1. Manter o termo original: reset
  2. Criar verbo híbrido: resetar
  3. Aportuguesar a pronúncia: “rezét”

Pelo funcionamento natural do português, o “s” entre vogais tende a ter som de “z” (como em casa, mesa, aviso). Assim, “re-set” acaba virando espontaneamente “re-zét”.

Mesmo quem defende a manutenção do termo original muitas vezes, sem perceber, pronuncia com som de Z.

 

Outros Exemplos de Aportuguesamento

Esse fenômeno não se limitou à informática. A história da língua portuguesa está cheia de adaptações:

  • Football: futebol
  • abat-jour:  abajur
  • shampoo: xampu

Na informática e eletrônica:

  • driver:  “draiver” (fala)
  • firmware: “firmuére”
  • scanner: “escâner”
  • backup: “becape”
  • login: “lóguin”
  • delete: “deletar”
  • boot:  “butar” (informalmente)

Alguns viraram verbos oficialmente aceitos no uso corrente:

  • formatar
  • escanear
  • deletar
  • printar

 

Pontos Positivos e Negativos da Reserva

A política nacional de informática teve efeitos mistos.

Pontos positivos:

  • Formação de engenheiros altamente capacitados
  • Desenvolvimento de empresas nacionais
  • Produção local de hardware
  • Forte base em eletrônica digital

Pontos negativos:

  • Equipamentos mais caros
  • Atraso tecnológico em relação ao exterior
  • Isolamento da literatura técnica internacional
  • Dificuldade posterior de integração ao mercado global

Em um período de evolução acelerada (microprocessadores como 8080, Z80, 6502), poucos anos de isolamento significavam grande defasagem.

 

Fidelidade Técnica vs. Evolução Linguística

Há duas posições legítimas:

1. Fidelidade técnica
Defende manter termos originais para preservar precisão e alinhamento internacional.

2. Evolução linguística natural
Reconhece que a língua falada adapta sons e cria formas próprias espontaneamente.

Na prática, as duas convivem:

  • Na escrita técnica formal → usa-se o termo original.
  • Na fala cotidiana → a língua adapta.

O debate  é apenas uma pequena janela para um fenômeno muito maior que marcou uma geração inteira de engenheiros brasileiros.

 

Professor Zuffo e a Prologica

Houve uma parceira entre a USP, através do professor Zuffo, e a prologica para o desenvolvimento de um computador UNIX, creio que baseado na arquitetura Motorola 68000.  Este projeto, com o codinome "Super Micro", por algum motivo não foi para frente e o máximo que vi  foi um protótipo do gabinete, no formato de pirâmide, ao estido de Luciano Deviá.  

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