03 julho 2023

MEU PRIMEIRO EMPREGO: QUANDO A ELETRÔNICA COMEÇOU A FAZER PARTE DE MINHA VIDA

Eu, na década de 70

Em 1976, aos 15 anos de idade, conquistei meu primeiro emprego. Foi na Triel Engenharia Elétrica Especializada, uma empresa de engenharia elétrica localizada na cidade de Santos, no litoral de São Paulo.

Comecei como auxiliar de escritório. Não era exatamente a posição que eu desejava, mas, para mim, aquela oportunidade significava muito mais: era a chance de estar próximo do mundo da eletricidade e da eletrônica, uma área que já despertava minha curiosidade e paixão.



Enquanto aguardava a realização de serviços externos, eu costumava aproveitar o tempo para ler revistas de eletrônica. Sentava-me em um banco no corredor da empresa e mergulhava naquelas páginas, tentando compreender circuitos, componentes e tecnologias que, naquele momento, ainda eram quase um mundo desconhecido para mim.

Foi justamente essa curiosidade que chamou a atenção de um dos técnicos do laboratório, o engenheiro Chiquinho. Percebendo meu interesse e meus conhecimentos na área, ele me perguntou, sem fazer qualquer promessa, se eu gostaria de trabalhar como auxiliar técnico no laboratório de engenharia.

Era exatamente a oportunidade que eu procurava.

Depois de algumas conversas e negociações entre o gerente do laboratório, engenheiro Chibó, e meu gerente financeiro, Sr. Celso, consegui ser transferido para o laboratório. Para um garoto de 15 anos apaixonado por eletrônica, aquilo era como entrar em um novo mundo.


Uma oportunidade que começou por uma indicação

Minha chegada à Triel aconteceu graças à indicação de uma vizinha, amiga de minha mãe, madrinha da minha irmã Elsa e mãe de nossa amiga Cynthia, a Dna, Nair.


Cynthia e seus pais Nelson e Nair - Foto da época


Cynthia, Dna. Nair e seu neto - Foto feita pouco antes de Dona Nair nos deixar.

                              

Dna, Nair conhecia o presidente da empresa, o engenheiro Francisco Rennó, e foi através dessa relação que surgiu a oportunidade do meu primeiro emprego.

Infelizmente, ela já não está entre nós, mas sua participação naquele momento tão importante da minha vida jamais será esquecida. Ela sempre estará em nossas lembranças e em nossos corações.


Eng. Francisco Rennó


Aprendendo eletrônica na prática

Naquela época, eu ainda não cursava um ensino técnico de eletrônica. O ensino médio era conhecido como colegial e, em Santos, havia apenas uma escola técnica de eletrônica, que era particular.

Minha família não tinha condições financeiras para pagar uma escola desse tipo. Acabei cursando Edificações em uma escola estadual, mas isso não diminuiu meu interesse pela eletrônica.

Na verdade, foi dentro do laboratório da Triel que tive uma das escolas mais importantes da minha vida.

Ali, eu acompanhava o desenvolvimento de produtos, realizava testes e calibração de equipamentos elétricos e também participava de serviços de manutenção.

Em algumas ocasiões, viajei para realizar a aferição de equipamentos em empresas e até para consertar equipamentos instalados em navios atracados no porto de Santos.

Eu adorava conversar com os engenheiros e técnicos. Cada conversa era uma oportunidade de aprender alguma coisa nova.


Os radioamadores e os primeiros experimentos

Muitos dos engenheiros e técnicos da Triel também eram radioamadores. A paciência e a disposição deles em compartilhar conhecimento foram fundamentais para minha formação.

Eu aprendia observando, perguntando e, principalmente, colocando a mão na massa.

Montei diversos circuitos de fontes de alimentação, receptores e antenas, seguindo sugestões daqueles profissionais e também os projetos encontrados nos livros e revistas de eletrônica que eu comprava, muitas vezes pagando em prestações.

Foi também nessa época que adquiri, de um dos engenheiros, meu primeiro rádio da Faixa do Cidadão (PX). Curiosamente, muitos anos depois, continuo tendo um modelo deste rádio PX, um  Tokai TC-502 .

Ainda me lembro claramente  como costumava passar horas à noite sentado, na beira da minha cama,  sintonizado no canal 7 (27.035Mhz) da faixa do cidadão, conversando com radioamadores no litoral de São Paulo. Meu modesto transmissor tinha apenas 0,25 watts de potência.

Tokai modelo TC-502, que possuo até hoje.

Hoje, olhando para trás, percebo que aqueles experimentos, aquelas revistas e livros e, principalmente, as conversas com os profissionais da Triel foram muito mais do que simples aprendizado. Eles ajudaram a construir a base daquilo que eu viria a fazer profissionalmente nos anos seguintes.

Abaixo estão equipamentos para calibração de relés, fabricados pela Triel, à venda em um anúncio recente no Mercado Livre.






A despedida

Em 1978, minha família mudou-se para São Paulo e, por esse motivo, precisei deixar a Triel.

Foi uma despedida difícil. Eu estava deixando não apenas meu primeiro emprego, mas também um ambiente onde havia encontrado pessoas que contribuíram muito para minha formação.

No meu último dia de trabalho, recebi alguns presentes. Antes de ir embora, o engenheiro Francisco Rennó me chamou em sua sala para agradecer pessoalmente pelo meu empenho na empresa.

Aquele gesto, especialmente para um garoto que havia começado ali aos 15 anos, marcou profundamente minha memória.

O engenheiro Francisco Rennó faleceu em 2018, aos 86 anos.


Mais de 50 anos depois...

A história, porém, ainda guardava uma surpresa.

Recentemente, o destino voltou a aproximar pessoas que fizeram parte daquela época da minha vida: eu, minha irmã Elsa, Cynthia e Silvio.

Silvio também era nosso vizinho e amigo de infância. Eu e Silvio compartilhamos alguns experimentos de eletrica e eletrônica.  

Anos depois, já adultos, Silvio e Cynthia voltaram a se encontrar e acabaram se casando.

E foi assim que, em 2026, mais de 50 anos depois, nossos caminhos voltaram a se cruzar.


Cynthia, Silvio, Elsa, Celso meu cunhado e eu - Encontro em 2026

Um reencontro que vai muito além de rever antigos amigos. É como abrir uma antiga caixa de lembranças e descobrir que algumas pessoas, apesar da passagem de tantas décadas, continuam presentesna nossa história.

Quando olho para trás e lembro daquele garoto de 15 anos sentado em um banco no corredor da Triel, lendo revistas de eletrônica enquanto esperava por um serviço, percebo que aquele momento aparentemente simples foi o início de uma longa jornada.

Eu ainda não sabia, mas estava começando ali uma história que levaria a muitos outros capítulos na eletrônica, na engenharia, na informática e na tecnologia.


E tudo começou com uma amizade, uma indicação carinhosa, uma oportunidade, algumas revistas de eletrônica e a curiosidade de um garoto que queria aprender.