10 março 2026

Quando ainda não existia internet

 

Uma BBS dos tempos modernos

Antes da internet como conhecemos hoje, com sites, redes sociais e vídeos instantâneos, existia um mundo digital que funcionava de um jeito bem diferente. Esse mundo era o das BBS, sigla para Bulletin Board System, ou "Sistema de Quadro de Avisos". E sim… ele funcionava usando a linha telefônica da sua casa.


Tudo começava com um telefonema

Nos anos 70 e 80, quem queria se conectar a uma BBS precisava de três coisas:

  • Um computador pessoal
  • Um modem
  • Uma linha telefônica comum

O modem era o aparelho que traduzia os dados do computador em sons, aqueles chiados que muita gente ainda lembra. Esses sons viajavam pela rede telefônica até outro computador, que geralmente ficava na casa de alguém comum. Isso mesmo: a maioria das BBS não ficava em empresas, mas na casa de entusiastas de informática. Uma das primeiras BBS da história foi criada em 1978 por Ward Christensen e Randy Suess, nos Estados Unidos.





Modem V.92 . Os V.90 foram disponibilizados para o consumidor em 1998
Modem USRobotics Courier disponivel para o consumidor em 1984



A Tecnologia e a Velocidade

Nada de servidores gigantes. As BBS rodavam em microcomputadores da época, que eram máquinas baseadas em processadores simples, com pouca memória (às vezes menos que um arquivo de texto atual) e armazenando tudo em disquetes. No Brasil, era comum ver BBS rodando em clones nacionais de micros estrangeiros, como os compatíveis com CP/M ou MSX.

E a conexão era muito lenta. Velocidades comuns eram de 300 bps (bits por segundo) a 1200 bps, e 1200 já era um luxo!. Para você ter uma ideia, a internet de hoje provavelmente é milhões de vezes mais rápida.


Cronologia dos modems usados por consumidores

Ano (aprox.)Padrão / TecnologiaVelocidade máximaObservações
1970V.21300 bpsPrimeiro padrão amplamente usado em microcomputadores
1977V.221200 bpsMuito usado no início dos BBS
1984V.22bis2400 bpsPopular nos PCs dos anos 80
1988V.329600 bpsGrande salto de velocidade
1991V.32bis14.4 kbpsMuito comum em BBS e serviços online
1994V.3428.8 kbpsInternet discada começa a se popularizar
1996V.34 (upgrade)33.6 kbpsÚltimo modem “puro” analógico
1997x2até 56 kbpsTecnologia da U.S. Robotics
1997K56flexaté 56 kbpsDesenvolvido por Rockwell Semiconductor Systems e Lucent Technologies
1998V.9056 kbps download / 33.6 uploadPadrão oficial da International Telecommunication Union
2000V.9256 kbps download / 48 upload

Embora o modem fosse chamado de 56k, na prática quase ninguém passava de 44–50 kbps, por limitações da rede telefônica analógica.


A Primeira Rede Social da História

Apesar da tecnologia limitada, o lado mais importante das BBS era o social. Era praticamente um WhatsApp, um Fórum e um Google Drive, tudo misturado em modo texto. As pessoas se conectavam para:

Trocar mensagens (funcionava como um e-mail primitivo)

Participar de fóruns, conhecidos como "message boards"

Baixar programas e jogos

Compartilhar textos e ideias

Com o tempo, surgiu a ideia de ligar várias BBS entre si. Assim nasceu a FidoNet, uma rede mundial que permitia enviar mensagens entre cidades e trocar arquivos entre países. E tudo isso usando telefone, com as BBS ligando umas para as outras durante a madrugada para baratear o custo da ligação.


O Cenário Brasileiro


MANDIC BBS uma das maiores do Brasil


Nos anos 80 e início dos 90, o Brasil viveu sua própria era de BBS. Como a telefonia era cara, as conexões eram normalmente locais, dentro da mesma cidade e a conexão feita depois das 0:00hs, onde a chamada era mais barata e o telefone estava livre. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, surgiram dezenas de sistemas mantidos por estudantes, engenheiros, radioamadores e apaixonados por informática.

As comunidades eram muito ativas, trocando softwares, lendo jornais digitais, compartilhando jogos e fazendo debates políticos e culturais. Tudo via texto. Nada de imagens ou vídeos, só ideias.


O Espírito das BBS Continua Vivo!

Com a chegada da internet comercial nos anos 90, as BBS começaram a desaparecer. Mas deixaram um legado enorme: fóruns, redes sociais, e-mail, download de arquivos e comunidades online praticamente nasceram ali.

Se você acha que as BBS morreram, pense de novo. Hoje, em pleno século XXI, existe uma comunidade mundial de entusiastas que ainda se conecta usando máquinas antigas, muitas vezes com o hardware original. Computadores como TRS-80, MSX, Apple II e sistemas CP/M ainda conseguem acessar as BBS modernas.

Como as linhas telefônicas desapareceram, a mágica moderna funciona assim:

Entusiastas usam WiFi Modems ou Ethernet Modems.

Esses dispositivos enganam o computador antigo, fazendo ele acreditar que ainda está discando para outro sistema.

Em vez de discar, eles conectam via Telnet ou SSH, protocolos que funcionam como uma ligação digital pela internet.

Na prática, o computador pensa que está em 1985, mas na verdade está em 2026. E a interação continua igual, com fóruns, chats, troca de arquivos e mensagens entre usuários. Mais do que nostalgia, é uma forma de preservar a história e manter essas comunidades vivas.

 

Quer voltar no tempo? Veja algumas BBS Brasileiras ativas hoje:

Você pode usar o seu computador atual para vivenciar essa experiência. Aqui estão alguns sistemas que ainda funcionam:

Nome da BBS

Endereço

Porta

Observações

SoftSolutions

softsolutions.net.br

2023

Integra com Fidonet

Clube da Insônia

bbs.conf.eti.br

23

Estilo clássico

Baffa BBS

baffa.zapto.org

2323

Veterana

Terra Brasilis

tbrasilis.ddns.net

23000

Comunidade ativa

Micronet BBS

micronet.ddns.net

2323

Mensagens e troca

Cult of Shaky Shell

35.198.6.23

8888

Interface ANSI


Indo mais além, este site possui um catálogo extenso com referencias de muitas BBS modernas no mundo.



Como conectar no Windows usando o Putty:

Tipo de conexão: Telnet

Host: bbs.conf.eti.br (exemplo)

Porta: 23




 


Modem WIFI Nanico



Um modem Nanico para conectar os CP500, C300, ou qualquer outro computador antigo. Isso inclui Os meus CO500 e CP300 Nanicos.

Vasculhando na Net achei vários projetos de modem WIFI que permitem a utilização de computadores antigos as BBS, como se estivessem fazendo isso nos anos 70 e 80.

Estes modem possuem hardares modernos, utilizando modulos como o ESP8266. O que escolhi, foi o projeto que esta em https://github.com/mecparts/RetroWiFiModem , tem um hardware e software bem completos, incluindo LEDs de status e também a emulação do som que se houvia durante a discagem e negociação de conexão. A escolha por este me caiu bem, pois eu tinha todos os componentes nas minhas caixinhas de acumulador.


O resultado final

Comprei duas caixas plasticas da PATOLA que parecem ter sido feitas para o projeto, cada uma com seu estilo remetendo a modem retro.








Como as conexões sao poucas, neste meu protótipo, nem me preocupei em fazer uma montagem limpa e bonita, afinal é um daqueles protótipos definitivos.

Nesta montagem, não inclui o conversor TTL para RS232, pois somente será utilizada nos CP300 e CP500 nanicos, via USB.

Protótipo



CP500 Nanico com WIFI modem Nanico


CP300 Nanico baixando arquivo da BBS




 

04 março 2026

Reserva de Mercado, Linguagem Técnica e o Aportuguesamento de Termos na Informática Brasileira

 


Nas décadas de 1970 e 1980, a informática brasileira viveu um período muito particular. Não foi apenas uma fase de desenvolvimento tecnológico, foi também um momento de construção de identidade técnica e linguística.


A Reserva de Mercado e a Política Nacional de Informática

Durante o regime militar, o Brasil implementou a chamada “reserva de mercado” na área de informática. Essa política foi formalizada pela Lei da Informática de 1984 e executada principalmente pela Secretaria Especial de Informática (SEI).

O objetivo era claro:

  • Reduzir a dependência tecnológica externa
  • Criar uma indústria nacional forte
  • Desenvolver conhecimento técnico próprio
  • Formar engenheiros capacitados internamente

Empresas estrangeiras enfrentavam restrições para vender certos equipamentos no Brasil. A ideia era estimular a produção e o desenvolvimento locais.

Essa política só foi encerrada no início dos anos 1990, durante o governo de Fernando Collor de Mello, quando o mercado foi aberto às importações.

 

A Linguagem como Parte do Projeto Tecnológico

A política de informática não era apenas industrial, havia também um componente cultural e linguístico.

A lógica era simples e ambiciosa:

Se dominamos a linguagem, dominamos a tecnologia.

Dentro desse espírito, muitos autores passaram a evitar termos em inglês e criar equivalentes totalmente em português. Entre os nomes mais conhecidos dessa linha estava o professor José Antonio Zuffo, da Universidade de São Paulo (USP).

Seus livros foram importantes na formação de engenheiros, mas ficaram famosos também pelo uso intenso de traduções técnicas próprias, que muitos consideravam difíceis. No meio, alguns referiam-se a ele, carinhosamente, como professor Zovni.

 

O Problema das Traduções Literais

Alguns termos passaram a receber traduções extensas e pouco práticas. O exemplo clássico é:

EPROM
(Erasable Programmable Read-Only Memory)

Em vez de manter a sigla internacional, surgiam equivalentes como:

  • MARSL  “Memória Apagável e Reprogramável Somente para Leitura”
  • variações ainda mais longas e descritivas
BUFFER
  • buffer: “memória intermediária”
  • “amortecedor de dados”

O problema prático era evidente:

  1. Datasheets vinham em inglês.
  2. A literatura internacional usava as siglas originais.
  3. O aluno precisava “retraduzir mentalmente” para entender o padrão global.

Isso criava uma camada extra de dificuldade no aprendizado.

 

O Caso atual do  “Reset”

A discussão sobre o termo reset ilustra bem esse conflito.

Em inglês:

  • reset: pronuncia-se “ri-sét” (com som de S)

No Brasil, surgiram três caminhos:

  1. Manter o termo original: reset
  2. Criar verbo híbrido: resetar
  3. Aportuguesar a pronúncia: “rezét”

Pelo funcionamento natural do português, o “s” entre vogais tende a ter som de “z” (como em casa, mesa, aviso). Assim, “re-set” acaba virando espontaneamente “re-zét”.

Mesmo quem defende a manutenção do termo original muitas vezes, sem perceber, pronuncia com som de Z.

 

Outros Exemplos de Aportuguesamento

Esse fenômeno não se limitou à informática. A história da língua portuguesa está cheia de adaptações:

  • Football: futebol
  • abat-jour:  abajur
  • shampoo: xampu

Na informática e eletrônica:

  • driver:  “draiver” (fala)
  • firmware: “firmuére”
  • scanner: “escâner”
  • backup: “becape”
  • login: “lóguin”
  • delete: “deletar”
  • boot:  “butar” (informalmente)

Alguns viraram verbos oficialmente aceitos no uso corrente:

  • formatar
  • escanear
  • deletar
  • printar

 

Pontos Positivos e Negativos da Reserva

A política nacional de informática teve efeitos mistos.

Pontos positivos:

  • Formação de engenheiros altamente capacitados
  • Desenvolvimento de empresas nacionais
  • Produção local de hardware
  • Forte base em eletrônica digital

Pontos negativos:

  • Equipamentos mais caros
  • Atraso tecnológico em relação ao exterior
  • Isolamento da literatura técnica internacional
  • Dificuldade posterior de integração ao mercado global

Em um período de evolução acelerada (microprocessadores como 8080, Z80, 6502), poucos anos de isolamento significavam grande defasagem.

 

Fidelidade Técnica vs. Evolução Linguística

Há duas posições legítimas:

1. Fidelidade técnica
Defende manter termos originais para preservar precisão e alinhamento internacional.

2. Evolução linguística natural
Reconhece que a língua falada adapta sons e cria formas próprias espontaneamente.

Na prática, as duas convivem:

  • Na escrita técnica formal → usa-se o termo original.
  • Na fala cotidiana → a língua adapta.

O debate  é apenas uma pequena janela para um fenômeno muito maior que marcou uma geração inteira de engenheiros brasileiros.

 

Professor Zuffo e a Prologica

Houve uma parceira entre a USP, através do professor Zuffo, e a prologica para o desenvolvimento de um computador UNIX, creio que baseado na arquitetura Motorola 68000.  Este projeto, com o codinome "Super Micro", por algum motivo não foi para frente e o máximo que vi  foi um protótipo do gabinete, no formato de pirâmide, ao estido de Luciano Deviá.