Nas décadas de 1970 e 1980, a informática brasileira viveu
um período muito particular. Não foi apenas uma fase de desenvolvimento
tecnológico, foi também um momento de construção de identidade técnica e
linguística.
A Reserva de Mercado e a Política Nacional de Informática
Durante o regime militar, o Brasil implementou a chamada
“reserva de mercado” na área de informática. Essa política foi formalizada pela
Lei da Informática de 1984 e executada principalmente pela Secretaria Especial
de Informática (SEI).
O objetivo era claro:
- Reduzir
a dependência tecnológica externa
- Criar
uma indústria nacional forte
- Desenvolver
conhecimento técnico próprio
- Formar
engenheiros capacitados internamente
Empresas estrangeiras enfrentavam restrições para vender
certos equipamentos no Brasil. A ideia era estimular a produção e o
desenvolvimento locais.
Essa política só foi encerrada no início dos anos 1990,
durante o governo de Fernando Collor de Mello, quando o mercado foi aberto às
importações.
A Linguagem como Parte do Projeto Tecnológico
A política de informática não era apenas industrial, havia
também um componente cultural e linguístico.
A lógica era simples e ambiciosa:
Se dominamos a linguagem, dominamos a tecnologia.
Dentro desse espírito, muitos autores passaram a evitar
termos em inglês e criar equivalentes totalmente em português. Entre os nomes
mais conhecidos dessa linha estava o professor José Antonio Zuffo, da Universidade
de São Paulo (USP).
Seus livros foram importantes na formação de engenheiros,
mas ficaram famosos também pelo uso intenso de traduções técnicas próprias, que
muitos consideravam difíceis. No meio, alguns referiam-se a ele, carinhosamente, como professor Zovni.
O Problema das Traduções Literais
Alguns termos passaram a receber traduções extensas e pouco
práticas. O exemplo clássico é:
EPROM
(Erasable Programmable Read-Only Memory)
Em vez de manter a sigla internacional, surgiam equivalentes
como:
- MARSL
“Memória Apagável e
Reprogramável Somente para Leitura”
- variações
ainda mais longas e descritivas
- buffer: “memória intermediária”
- “amortecedor de dados”
O problema prático era evidente:
- Datasheets
vinham em inglês.
- A
literatura internacional usava as siglas originais.
- O
aluno precisava “retraduzir mentalmente” para entender o padrão global.
Isso criava uma camada extra de dificuldade no aprendizado.
O Caso atual do “Reset”
A discussão sobre o termo reset ilustra bem esse
conflito.
Em inglês:
- reset: pronuncia-se “ri-sét” (com som de S)
No Brasil, surgiram três caminhos:
- Manter
o termo original: reset
- Criar
verbo híbrido: resetar
- Aportuguesar
a pronúncia: “rezét”
Pelo funcionamento natural do português, o “s” entre vogais
tende a ter som de “z” (como em casa, mesa, aviso). Assim, “re-set” acaba
virando espontaneamente “re-zét”.
Mesmo quem defende a manutenção do termo original muitas
vezes, sem perceber, pronuncia com som de Z.
Outros Exemplos de Aportuguesamento
Esse fenômeno não se limitou à informática. A história da
língua portuguesa está cheia de adaptações:
- Football:
futebol
- abat-jour:
abajur
- shampoo:
xampu
Na informática e eletrônica:
- driver:
“draiver” (fala)
- firmware:
“firmuére”
- scanner:
“escâner”
- backup:
“becape”
- login:
“lóguin”
- delete:
“deletar”
- boot:
“butar” (informalmente)
Alguns viraram verbos oficialmente aceitos no uso corrente:
- formatar
- escanear
- deletar
- printar
Pontos Positivos e Negativos da Reserva
A política nacional de informática teve efeitos mistos.
Pontos positivos:
- Formação
de engenheiros altamente capacitados
- Desenvolvimento
de empresas nacionais
- Produção
local de hardware
- Forte
base em eletrônica digital
Pontos negativos:
- Equipamentos
mais caros
- Atraso
tecnológico em relação ao exterior
- Isolamento
da literatura técnica internacional
- Dificuldade
posterior de integração ao mercado global
Em um período de evolução acelerada (microprocessadores como
8080, Z80, 6502), poucos anos de isolamento significavam grande defasagem.
Fidelidade Técnica vs. Evolução Linguística
Há duas posições legítimas:
1. Fidelidade técnica
Defende manter termos originais para preservar precisão e alinhamento
internacional.
2. Evolução linguística natural
Reconhece que a língua falada adapta sons e cria formas próprias
espontaneamente.
Na prática, as duas convivem:
- Na
escrita técnica formal → usa-se o termo original.
- Na
fala cotidiana → a língua adapta.
O debate é apenas uma pequena janela para um
fenômeno muito maior que marcou uma geração inteira de engenheiros brasileiros.
Houve uma parceira entre a USP, através do professor Zuffo, e a prologica para o desenvolvimento de um computador UNIX, creio que baseado na arquitetura Motorola 68000. Este projeto, com o codinome "Super Micro", por algum motivo não foi para frente e o máximo que vi foi um protótipo do gabinete, no formato de pirâmide, ao estido de Luciano Deviá.